A Suécia ‘já não é um país em que não se pode confiar’

Guerras, conflitos entre fronteiras e convulsões geopolíticas raramente são considerados benéficos para os negócios.

Mas, aparentemente, a invasão da Ucrânia pela Rússia trouxe impactos positivos para dois dos vizinhos do agressor, no lado ocidental: a Finlândia e a Suécia.

É claro que não diretamente. Na verdade, foi a reação das duas nações nórdicas à invasão que transformou o medo em esperança.

Os dois países pediram para fazer parte da Otan, a aliança de defesa do Ocidente, em maio de 2022 – cerca de três meses após a invasão russa. E, quase três anos depois do pedido, ambos são membros plenos e já colhem seus benefícios, em termos econômicos e de segurança nacional.

“Não somos mais um país em que não se pode confiar”, destaca o executivo-chefe da empresa de defesa sueca Saab, Micael Johansson. Ele se refere à neutralidade histórica do país antes da guerra na Ucrânia.

Johansson destaca que, desde que a Suécia entrou na Otan, em março de 2024, a Saab já negociou acordos estruturais com a Agência de Apoio e Aquisições da Otan (NSPA, na sigla em inglês), o organismo que organiza as compras feitas pela aliança junto a empresas de defesa.

Ele destaca que, agora, é muito mais fácil saber o que está acontecendo dentro da Otan. “Até então, não tínhamos acesso à NSPA”, ele conta.

O embaixador da Finlândia no Reino Unido, Jukka Siukosaari, concorda. Para ele, “fazer parte da Otan nos coloca em pé de igualdade com todos os outros aliados, aumentando as possibilidades das empresas finlandesas de defesa e de outros setores.”

Para Micael Johansson, existe a percepção cada vez maior que a Europa precisa fazer mais sozinha

As empresas privadas irão se beneficiar com as promessas feitas pelos Estados-membros da Otan de aumentar seus gastos com a defesa.

Atualmente, apenas 23 dos 32 Estados-membros da organização cumprem com a meta de gastar 2% do PIB com a defesa. Mas, nos últimos meses, as pretensões aumentaram – e chegaram ao ápice nas últimas semanas, em meio às grandes turbulências vividas atualmente pela aliança.

Em meio às incertezas sobre o futuro da Otan, os compromissos com o aumento dos gastos certamente irão permanecer e até se ampliar, caso a Europa decida que não poderá mais contar com os Estados Unidos.

Os compromissos de gastos com a defesa dos membros mais novos da Otan já são maiores do que os indicados por vários membros mais antigos.

No ano passado, a Finlândia gastou 2,4% do PIB com a defesa, enquanto os gastos da Suécia atingiram 2,2%. Os dois países pretendem aumentar estes índices para 2,6 a 3% do PIB nos próximos três anos.

Exemplos de novas iniciativas da Otan no extremo norte da Europa incluem o estabelecimento de duas novas bases da organização e os esforços para formar forças de defesa conjuntas no norte da Finlândia.

Os planos incluem também a formação do Comando Aéreo Nórdico Conjunto, que irá reunir 250 aeronaves da linha de frente de combate da Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca sob uma estrutura de comando comum, com bases flexíveis e apoiada por inteligência compartilhada.

Além disso, serão necessários investimentos substanciais para reabastecer os estoques de armamentos avançados, como mísseis e sistemas antitanques, segundo Johansson.

Enquanto a Casa Branca anunciava a suspensão do auxílio militar americano à Ucrânia, líderes europeus declararam sua disposição de manter seu apoio a longo prazo. Por isso, também aqui, podemos esperar gastos contínuos e substanciais com armamentos.

A demanda por programas de vigilância aérea e sistemas subaquáticos também é cada vez maior, já que o retorno das tensões entre a Rússia e o Ocidente causa novos calafrios na região do Ártico.

A Saab está disposta a promover suas próprias soluções nestas áreas, como a plataforma de controle e alerta aéreo antecipado GlobalEye e seu veículo subaquático com controle remoto que pode neutralizar dispositivos explosivos, chamado Sea Wasp (“Vespa do Mar”).

E, com a forte insistência de Donald Trump em manter “a América em primeiro lugar”, o presidente americano provavelmente não ficará satisfeito ao ver os membros europeus da Otan dando preferência à Saab ou a qualquer outra empresa de defesa europeia, em detrimento dos Estados Unidos.

Por isso, a Europa precisará encontrar o equilíbrio entre o desejo de reduzir sua dependência e sua óbvia necessidade de manter o apoio americano.

Os membros europeus também precisarão considerar a complexidade e a interdependência dos sistemas de defesa da Otan. Eles costumam combinar máquinas e tecnologias, armas e munição, equipamentos e veículos produzidos em diversos países-membros da aliança.

Por isso, a Otan, de certa forma, é mantida coesa por complexas cadeias de abastecimento e acordos contratuais, que não podem ser desfeitos da noite para o dia.

“As relações transatlânticas da Europa sempre serão importantes”, afirma Johansson. Mas ele também indica uma “percepção cada vez maior na Europa de que precisamos fazer algo mais sozinhos”.

Como outros membros da Otan, os países nórdicos estão aumentando seus gastos militares

“Os Estados Unidos realmente protegem sua indústria de defesa e devemos fazer o mesmo na Europa”, segundo ele. Ele é favorável à “feroz concorrência” entre as empresas de defesa comerciais.

Mas grande parte desta concorrência pode envolver companhias relativamente novas no setor de defesa.

A agência de promoção do comércio do governo finlandês, Business Finland, publicou um guia que orienta as empresas sobre como fazer negócios com a Otan. Seus autores preveem que as forças armadas dos dois lados do Atlântico terão “novas e significativas necessidades de serviços e equipamentos, de alta e baixa tecnologia”.

Muitas dessas necessidades precisarão ser atendidas por start-ups e empresas de pequeno a médio porte, segundo o guia, não exclusivamente por grandes companhias de defesa estabelecidas.

O consultor de política de defesa e segurança da Confederação das Empresas Suecas, Johan Sjöberg, afirma que a entrada do seu país na Otan abriu portas para as companhias suecas, principalmente porque “a perspectiva de outros países e empresas [em relação a elas] mudou”.

Sjöberg destaca que ele é a favor de uma “visão holística, de que a segurança é boa para os negócios, pois o aumento da segurança e da estabilidade fornece credibilidade a longo prazo”.

A Otan aumentou suas operações na região do Ártico

Também na Finlândia, a entrada do país na Otan criou novas oportunidades, especialmente para inúmeras empresas de pequeno e médio porte, que o embaixador Siukosaari chama de “spin-offs [derivadas] da Nokia”.

Espera-se que essas empresas forneçam cada vez mais tecnologia de ponta, como drones, sensores e sistemas de vigilância digital, para programas como a “parede de drones”, que irá da Noruega à Polônia. Ela está sendo desenvolvida por seis países-membros da Otan para defender suas fronteiras com a Rússia.

De fato, à medida que se altera a natureza do equipamento bélico, a segurança da Europa pode depender cada vez mais da ciberdefesa e da proteção das instalações civis, como cabos e tubulações submarinas, fundamentais para a operação de sistemas.

Mas a ideia mais revolucionária decorrente da expansão da Otan na região nórdica talvez seja o conceito de “Defesa Total” da região.

Aplicado na Noruega e na Dinamarca, este conceito considera a infraestrutura nacional, como a internet, telefonia, geração e distribuição de energia, redes de estradas e o abastecimento seguro de alimentos e remédios, como parte de um sistema de defesa total.

Grande parte dessa estrutura pode não estar registrada como gastos de defesa nas estatísticas, mas nenhuma delas vem de graça.

Além dos gastos com infraestrutura civil, o serviço militar nacional, às vezes, retira as pessoas das partes produtivas da economia, como destaca o embaixador Siukosaari. Mas talvez elas ofereçam mais para as nações do que o simples fornecimento de produtos e serviços?

Os membros mais novos da Otan acreditam que poderão ensinar uma ou duas coisas sobre a defesa para os outros países aliados. Eles certamente trazem novos pontos de vista sobre como avaliar os gastos com a defesa.

E, talvez, também sobre como a sociedade civil e as empresas privadas podem participar da questão.

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